Ex-presidente do PT, José Genoino prega boicote a judeus e mostra que, no Brasil, racismo só é crime se for contra a esquerda
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Em outubro do ano passado, dez dias depois do ataque terrorista do Hamas a Israel, a reportagem de capa da edição 187 de Oeste mostrou que o veneno antissemita havia se espalhado pelo mundo. “A esquerda mundial, como o PT, se uniu para acusar Israel de ter reagido aos atos de barbárie que sofreu”, dizia o texto de J.R. Guzzo. Passados mais de três meses da guerra em curso no Oriente Médio, o racismo contra o povo judeu se tornou cada vez mais explícito — e, cruelmente, tolerado — pelos chamados “progressistas” nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, não é diferente: o antissemitismo faz parte da cartilha da esquerda.
O episódio mais recente ocorreu numa live, feita no sábado 20, pelo site Diário do Centro do Mundo, com a presença do ex-presidente do PT José Genoino. Ao comentar a guerra de Israel contra os terroristas do Hamas, ele defendeu o boicote a “empresas de judeus”. Genoino disse exatamente o seguinte:
“Acho interessante essa ideia da rejeição, essa ideia do boicote por motivos políticos que ferem interesses econômicos, é uma forma interessante. Inclusive tem esse boicote em relação a determinadas empresas de judeus. Há, por exemplo, boicote a empresas vinculadas ao Estado de Israel. Inclusive, acho que o Brasil deveria cortar as relações comerciais, na área da segurança e na área militar com o Estado de Israel.”
A reação de entidades israelitas foi imediata por dois motivos. O primeiro: antissemitismo é crime no país, segundo o artigo 20 da Lei nº 7.716, de 1989. “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, diz o texto. Pena: reclusão de um a três anos e multa. Ou seja, a declaração de Genoino, disponível na internet, deve ser apurada como crime previsto em lei.
“A fala de Genoino, sem conhecimento dos benefícios dessa relação comercial, é também contrária aos interesses do Brasil e da população brasileira. Trata-se de dois países democráticos, independentes, com benefícios comerciais recíprocos.”
(Câmara Brasil Israel de Comércio e Indústria)
Outro ponto é que não se trata de uma manifestação “antissionista” — de alguém que se opõe ao Estado de Israel. O petista prega boicote a “empresas de judeus”. A fala ignóbil remete a um dos períodos mais sombrios do século passado, porque o estrangulamento de empresas e do comércio de judeus na Alemanha marcou o início do nazismo de Adolf Hitler. O resultado foi o Holocausto.
A Federação Israelita do Estado de São Paulo disse que o discurso “flerta com o nazismo”. Deputados em Brasília e na Assembleia Legislativa de São Paulo apresentaram notícia-crime ao Ministério Público Federal e Estadual. Genoino não pediu desculpas até agora.
“A Conib, mais uma vez, apela às lideranças políticas brasileiras para que atuem com moderação e equilíbrio diante do trágico conflito no Oriente Médio, pois suas falas extremadas e em desacordo com a tradição da política externa brasileira podem importar as tensões daquela região ao nosso país.”
(Confederação Israelita do Brasil)
Governo antissemita
Apesar das tentativas de parlamentares e entidades para buscar a Justiça contra crimes de racismo, uma pergunta é inquietante: por que militantes como Genoino se sentem hoje tão à vontade para atacar judeus? A sensação de impunidade começa nas falas do presidente da República. Lula e a diplomacia brasileira dão respaldo a esse tipo de manifestação.
Lula atacou Israel no ano passado, antes da barbárie de outubro. Em solo espanhol, ele resgatou uma cantilena ideológica da esquerda, sem amparo histórico, no dia em que se comemorava a Independência de Israel. “A ONU [Organização das Nações Unidas] era tão forte que, em 1948, conseguiu criar o Estado de Israel. Em 2023, não consegue criar o Estado Palestino.”
Houve mal-estar, mas era só o começo. Lula nunca chamou o Hamas pelo que é: terrorista. Pelo contrário, o petista tentou, em vários pronunciamentos, buscar equidade entre o grupo criminoso e o Exército de Israel, que defende a existência do seu Estado constituído — a única democracia na região.
Em outubro, mês do banho de sangue em Israel, quis o destino que o Brasil estivesse no comando do Conselho de Segurança da ONU. Desde 2003, Lula pleiteia que o país tenha um assento fixo no colegiado. A diplomacia brasileira, contudo, perdeu a chance de se alinhar a países que defendem valores do Ocidente, como os Estados Unidos, e teve sua resolução sobre a guerra vetada. Foi um vexame mundial.
Mas a posição do presidente serviu de comando para uma série de disparos contra judeus, pelo PT e por partidos-satélites, aqui no Brasil. Lula acusou o governo israelense de promover um genocídio na Faixa de Gaza. “Israel joga bomba onde tem crianças, onde tem hospital, a pretexto de que um terrorista está lá, não tem explicação”, disse no fim do ano.
O petista atiçou a militância ao afirmar que o Exército de Israel promoveu uma chacina, especificamente, contra crianças — um disparate, já que bebês foram degolados pelo Hamas, e outros seguem seus reféns. De novo, a esquerda acolheu e espalhou a estatística mentirosa dos terroristas, que apontou a morte de 4 mil crianças em ataques fake a hospitais.
Um caso acabou desmascarando a máquina de propaganda do Hamas, difundida sem nenhuma preocupação pelas redações e agências de checagem: a destruição de um hospital em Gaza pela artilharia aérea israelense. A informação foi desmentida na mesma semana com imagens de drones israelenses e uma conversa interceptada entre terroristas. No diálogo, um criminoso afirma que era, na verdade, um foguete lançado pelo próprio Hamas, que atingiu um estacionamento próximo ao hospital — o número de mortos, e se houve mortos, nem sequer foi mencionado.
Paralelamente, petistas instalados em órgãos do governo federal foram demitidos porque publicaram mensagens racistas nas redes sociais, entre eles o presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Hélio Doyle. Ministros como Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Silvio Almeida (Direitos Humanos e Cidadania) tiraram fotos ao lado de um apoiador do Hamas e do Hezbollah no Brasil, conhecido como Sayid Tenório, ligado ao PCdoB do Maranhão.


Passeatas pró-Hamas
Militantes de siglas de esquerda, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sindicalistas e estudantes grisalhos filiados ao PCO, PSTU e Psol se misturaram em passeatas a céu aberto, a favor do Hamas, na Avenida Paulista e nos campi de universidades públicas. Até o padre Júlio Lancellotti — agora às voltas com investigações sobre pornografia com um menor — compareceu a uma delas. Não demorou para aparecerem camisetas à venda do Hamas e do Hezbollah — grupo terrorista libanês — em tendas improvisadas no vão do Masp, na capital paulista.
A desculpa-padrão é que as manifestações foram convocadas a favor da criação do território da Palestina. Ou ainda em defesa do cessar-fogo na Faixa de Gaza. Mas o que explica a criação de marchinhas, como blocos carnavalescos, a favor do Hamas? Ou bandeiras de Israel incendiadas?
Do alto de um carro de som, Rui Pimenta, dirigente do PCO, chamou os terroristas de “companheiros” num domingo de sol. “Os companheiros disseram: ‘Vocês que ainda não lutam, não chorem por nós. Nós ainda estamos vivos, e vocês estão mortos por dentro’. Os palestinos estão vivos porque lutam, porque têm coragem, porque enfrentam Israel. Nós temos que estar vivos e lutar e ter coragem de enfrentar Israel”, afirmou.
O principal responsável pela política antissemita nos governos do PT é o assessor internacional Celso Amorim, que já ocupou o posto de chanceler no passado. Amorim é entusiasta ferrenho da causa palestina — o que é legítimo, mas o Hamas não é “o governo da Palestina”. Recentemente, o assessor de Lula foi autor do prefácio do livro Engajando o Mundo: A Construção da Política Externa do Hamas, de Daud Abdullah (Memo Editora, 2023). Nas páginas, ele não cita os mísseis do Hamas contra Israel, mas o que chama de “dimensão internacional” do grupo criminoso e os “esforços diplomáticos e as alianças globais no papel central na restauração dos direitos palestinos”.

Capas dos livros Engajando o Mundo: A Construção da Política Externa do Hamas, de Daud Abdullah, e Judeus Não Contam, de David Baddiel | Foto: Divulgação
Em outro livro, também recente, intitulado Judeus Não Contam (Avis Rara, 2023), o britânico David Baddiel narra — com a lucidez que falta ao PT — que, ao longo da História, o antissemitismo se repete no mundo. O autor afirma que os judeus, vítimas do racismo original, atualmente são ignorados pela esquerda contemporânea, justamente a que diz defender as minorias. Mas, no Brasil, não se trata mais de hipocrisia, ignorância juvenil ou ideologia. O antissemitismo precisa ser investigado como caso de polícia.
(revistaoeste)
