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Nailse e a ditadura

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ColunistaMarco Anconi

A data em questão é imprecisamente entre 1974 e 76. Neste período trabalhava na coligada da, então honesta, Globo, no telejornalismo da TV Anhanguera em Goiânia (GO). Como todo “foca”, era responsável pela gravação dos programas semanais e mesmos os matinais da grade local.

Mas é importante entender que, na época, a programação da emissora ia até as 22h, quando saía do ar e, daí, nós, os focas, ficávamos até as 03h gravando nas raras “ilhas de edição” as fitas magnéticas (vídeo tape) com o conteúdo que entraria no ar à partir das 7h30.

Feitas as devidas localizações temporais e tecnológicas, vamos aos acontecimentos.

No auge dos meus vinte e poucos anos, fazer o trabalho indesejado pelos “âncoras”, era um privilégio para poucos. Nesta esteira era admirado por alguns e invejado pela maioria, o que massageava meu ego e me colocava em um pedestal.

Numa dessas madrugadas, ia caminhando por cerca de quatro quarteirões rumo à minha cama. A brisa era minha companheira e os pensamentos vagavam entre o que havia feito e o que, possivelmente, não havia por esquecimento e mesmo falta de experiência.

Vi parar ao meu lado na rua uma viatura da polícia militar (camburão bege). Sem descer, educadamente o policial me solicitou a carteira de identidade. Ato contínuo saquei do bolso o documento e o passei ao tenente. Este, aos risos, mostrou para os demais policiais da viatura, que também esboçaram sorrisinhos de canto-de-boca.

Aturdido, mirei os policiais com aquele olhar de “quê-que-houve?”. O comandante da viatura então com algum sorriso na boca me disse: Nailse me mostre a identidade do seu namorado.

Entre o desentendimento e a constatação da pisada na bola, enfiei a mão no bolso e trouxe a minha licença de jornalista, entregando ao afável homem da lei. Após examinar o documento me perguntou o que fazia na rua no meio da madrugada. Contei o que narrei no início deste texto. Isto feito, os policiais me desejaram boa caminhada e seguiram sua ronda noturna.

Este foi o maior e mais arbitrário ato ditatorial que sofri nos chamados “anos de chumbo”.

Considere o seguinte:

- Jornalista, na época, além da licença profissional, era obrigado a ter a “Carteira Nacional de Artista”, que era obrigatória também para pintores; músicos; dançarinos e vedetes (prostitutas). Cid Moreira era respeitado como profissional sério e era modelo de lisura e retidão, não um fantoche cheio de caras e bocas como os globais de hoje.

- Cidadão de bem (trabalhador) era protegido pelas forças armadas em seus vários graus;

- Podia-se falar qualquer coisa de quem quer que seja, mas tinha que ter o ônus da prova. Reputação era algo intocável;

- Bandido algum (inclusive os com cargos políticos) se arriscava a cometer contravenções a céu aberto, pois sabia que a resposta policial era chumbo quente.

Hoje, vigésimo primeiro milênio, me assombra da desfaçatez e “cara-de-pau” de entes que deveriam garantir a lei, grafada na Constituição Federal, se pronunciarem fora dos autos, exercerem poder de legisladores, de poder de polícia e, mesmo, de poder executivo.
deuses togados!

Hoje, era da tecnologia, tentam impor o medo via censura explícita travestida de “ordem democrática”, dizendo quem e o que pode ser dito nos veículos de informação. Mentem e reafirmam a mentira.

Bons tempos aqueles em que éramos livres e não sabíamos. Saudade da Nailse, negra lida (ops, afrodescendente) no auge e exuberância dos seus dezenove anos.

Seja feliz e encontre-se. Ame-se e evolua.

Marco Anconi - jornalista
mac.anconi@gmail.com

Foca: jornalista iniciante; neófito.
Âncora: jornalista experiente; bam-bam-bam.


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